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Por Um Novo Cine Éden

HISTÓRIA DO CINE TEATRO ÉDEN

Por volta de 1927, vinte anos após a primeira exibição pública realizada pelos irmãos Lumière no Grand Café, em Paris, o imigrante italiano José Miraglia abre as portas do Cine Éden, na cidade de Ipiaú-BA, 352 Km distante da capital, Salvador. Os filmes eram projetados na parede e a trilha sonora era feita por um pianista e um narrador, ao vivo.

Já em 1937, José Miraglia resolve reformar o cinema e transformá-lo num Cine Teatro. A reforma durou alguns anos. Construiu uma fachada com referências da “art-noveau”, com 560 poltronas de madeira, divididas em 03 fileiras com ótima visibilidade do grande palco, além do piso de madeira que foi montado para a realização de espetáculos, shows e outros eventos. Foi com essa estrutura que se apresentaram Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Wanderley Cardoso, Jerry Adriane, Raulzito e seus Panteras, dentre outros, nos palcos do Cine Teatro Éden.

Na época da reforma, em plena II Guerra Mundial, o projetor Triunpho chegou em Ipiaú por um alemão que foi instalar o equipamento no cinema. Ao chegar com uma máquina daquele tamanho, a população pensou ser uma arma para exterminar a população, o que causou o maior alvoroço na cidade.

Outros cinemas existiram na cidade, mas não se firmaram por muito tempo. O Cine Bonfim, que se iniciou em 50, o Cine São Luiz, do padre Flamarion e o Cine Dren, Apelidado de Cine Bufa. O Cine Teatro Éden consolidou-se por algum tempo, mas logo em seguida sofreu constantes mudanças em sua diretoria. Após a morte de José Miraglia, em 1961, o Cine Teatro Éden foi vendido para os irmãos Motta (João e José Motta Fernandes) e passou por nova reforma em 1962. Dessa vez foram instalados som estereofônico e dois projetores Philips FP 56 Total, com lentes anamórficas.

Justamente nessa época, às vésperas do Golpe Militar, o cinema reabre e tem como projecionista Lula Martins, ou “Pinduca” como era conhecido pela população. Lula foi o protagonista do filme Meteorango kid e criou a lendária capa do disco Acabou Chorare, dos Novos Baianos.

Posteriormente o Cine Teatro Éden foi comprado pelos irmãos Rocha (Francisco Chagas Rocha e Zito Rocha) e por fim, foi vendido à José Assis Filho, mais conhecido como Dren que comenta: “Quem investia num cinema, não perdia dinheiro, mas depois chegou a televisão e o videocassete, as pessoas não queriam mais sair de suas casas para ir ao cinema, o negócio foi dando pouco lucro, não tínhamos nenhum apoio do governo, até que eu fechei o Cine Éden e ninguém quis mais pegar”.

Assim, o povo de Ipiaú perdia sua maior opção de divertimento coletivo-cultural. O prédio foi arrendado e o espaço onde funcionou o cinema deu lugar a uma loja de móveis e eletrodomésticos, retirando toda a estrutura interior do prédio. Poltronas, Telas, Bilheteria, tudo foi retirado do espaço.

Conforme texto publicado no Jornal Rapatição, em agosto de 1984, a população não ficou alheia ao fechamento do Édene de maneira organizada promoveram atos públicos, passeatas, denunciaram e conseguiram sensibilizar a Câmara Municipal de Vereadores, que, por sua vez, embargou a depredação e convocou todos os segmentos da sociedade para discutir o problema, no dia 02 de agosto de 1982, na Sede do Rio Novo Tênis Clube. Na oportunidade a prefeitura quis comprar o Cine Teatro Éden, mas o proprietário pediu pelo prédio a exorbitante quantia de 300 milhões.

A tentativa de comprar o imóvel de forma dialogada não deu certo, foi então que a população intensificou as manifestações para que, pelo menos a fachada do imóvel fosse tombada e com isso, houvesse a possibilidade de um dia reestruturá-lo. Em 1991, houve o tombamento da fachada, transformando o Cine Teatro Éden em Patrimônio Histórico Cultural de Ipiaú, mas o mesmo nunca mais retornou à sua atividade de origem, de promover shows, exibir filmes, realizar eventos, reunir a população, formar artistas e movimentar a produção cultural no interior da Bahia.

Em 2017, o imóvel ficou vazio, disponível para ser alugado, esperando um Novo Cine Teatro Éden. Apesar de toda a mobilização da população e da classe artística, a revitalização ainda não aconteceu. Hoje, em 2020, o imóvel voltou a ser alugado pelo Restaurante Pimenta de Cheiro e, apesar de não ter sido revitalizado como um equipamento público, no local funciona um “Bar Cultural.”

O Éden constituiu um elemento importante para o desenvolvimento da cidade, uma vez que levou multidões para o local e gerou muitos empregos. Foi ainda fator importante para a construção do caráter artístico de muitos cantores, artistas plásticos, escritores, jornalistas, fotógrafos, etc… Além de fazer parte de um memorial que progressivamente é esquecido pelo Poder Público e pela população que já se habituou à ausência do direito à cultura. A cultura precisa ser revivida, praticada e reinventada. Há um cinema cheio de histórias em Ipiaú e uma população que não possui acesso a um equipamento cultural adequado. A nossa história e o Cine Teatro Éden precisam ser preservados.

Por um Novo Cine Éden!

Arte feita por Ayam Ubráis Barco

Cine Éden Filismino

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